Hilário, o Coelho


Hilário, o coelho, pousa os olhos em Jeremias e, sobressaltado, repara de imediato no seu cajado. O medo é tal, que o confunde com uma carabina e, logo ali, diante do pequeno caminhante, desata a suplicar-lhe para ser poupado.

Jeremias, que não se lembra de algum dia ter pregado um susto a alguém, não esconde alguma vaidade na situação, e sente-se a crescer um bocadinho.

Porém, o complexo não lhe dá tréguas e logo se sente a diminuir, pois até o coelho que tem à frente lhe parece agora gigante. Será verdade ou serão os seus olhos que, fatalmente treinados, o enganam e tudo veem maior?

O coelho muito vivo, intuindo que o caminhante tem um problema, sente-se inclinado a ajudá-lo, e metendo conversa pergunta-lhe “Acaso pretendes continuar por aqui a tua caminhada?” ao que Jeremias lhe responde “Ou é das minhas pernas ou da quadratura do meu mundo, a verdade é que saí da Quinta do Castanheiro há um bom bocado, e sinto-me como que encurralado, como se não conseguisse sair do mesmo sítio”.

Perante isto, Hilário percebe que o problema dele reside na cabeça, e acrescenta “Quando olhas para mim, certamente imaginas que sou veloz e perspicaz, mas olha como estou agora diante de ti parado e a tremer”

Não ouvindo qualquer referência do coelho à sua estatura, mas sim ao medo que lhe causou, Jeremias rejubila.

Sem se deter Hilário acrescenta “Já que falas no sentimento atrofiante que o teu quadrado te inspira, convido-te a sair dele, e com um salto, como se fosses um coelho, a vir experimentar do meu mundo”.

Assim fez Jeremias, julgando que aquele seria mais prazenteiro. Porém, ao fim de algumas horas, depois de muitos saltos e outros tantos sobressaltos, percebe que aquela natureza não é a sua e, saudoso, quer voltar a ser Jeremias, ainda que pequeno, no mundo dos homens que já conhece.



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