CAPÍTULO 2


Jeremias, o Caminhante


Jeremias, conhecido pela sua estatura, vive num lugarejo mesmo às portas da Quinta do Castanheiro.

Sozinho e ensombrado pela sua pequenez, teima em não esquecer as palavras que Fulgêncio lhe dirigiu esta manhã. As malditas fazem eco e não lhe saem do pensamento “Viva! Quase não te via”.

Fora assim mesmo que aquele ser colossal lhas tinha atirado e depois seguido o seu caminho.
Apesar de se considerar um sujeito bem-humorado, este episódio abriu uma ferida antiga, fazendo-o recordar outros tantos que guarda na memória. Na escola sempre fora o mais pequeno e, para disfarçar, tinha aprendido a usar uma pedra ou uma qualquer inclinação para se sentir à altura dos outros. Embora tudo faça para a esquecer, essa diferença está sempre presente no dia-a-dia, tornando-se por vezes uma obsessão.

Talvez por isso prefira a companhia dos animais à das pessoas. É geralmente nos passeios pela natureza que encontra alívio, tal como agora que, sem pensar duas vezes, agarra na sacola e no cajado e atira-se ao caminho, seguindo por um trilho sem destino. Sente-se tão insignificante e infeliz que nem vê as margaridas no vasto prado por onde passa, nem ouve os pássaros que chilreiam, apenas as palavras de Fulgêncio que vai ouvindo cada vez mais alto “Quase não te via”.
Embrulhado nos pensamentos, vai caminhando como um condenado, até que no silêncio ouve um restolhar nas ervas, e eis senão quando lhe aparece Hilário, o coelho!



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