O Cisne Vicente e a Pata Emília


O trio do cisne e da pata retrata um momento muito importante da vida do cisne Vicente que, com a família, vive na Quinta do Castanheiro.

Fiquei a saber por Fulgêncio, que o Cisne, embora pareça glorioso, tem uma história triste, que se deve a algo que aconteceu ainda antes de ter nascido.

Tudo se passou há pouco tempo num dia em que decorria uma desfolhada no terreiro em frente do celeiro da casa. Do seu interior ouvia-se uma grande algazarra. Afastados dos fardos de palha e dos alqueires de milho, moços e moças eufóricos, dançavam as modinhas tocadas por músicos acompanhados de Albertina, a cantadeira.

No meio de tanta agitação, a mãe cisne deixou escapar um ovo que foi rebolando e, sem se partir, acabou junto da mãe pata.

Emília, de tão entretida que estava a assistir à festa, distraída, ajeitou o ovo com o bico para debaixo do seu corpo quente, julgando que era um dos seus.

Passados alguns dias, começaram a sair da sua ninhada, um a um, lindos patinhos cobertos de uma penugem encantadora. Emília, ao ver um deles muito feio e desengonçado, percebeu que algo não estava bem.

Porém o seu coração bondoso a isto não se quis prender, e logo tratou de criar o patinho feio com o mesmo zelo e devoção. Já os irmãos não o queriam aceitar e com desprezo afastavam-se dele, seguindo para todo o lado com rapidez, deixando-o sozinho para trás.

Vicente carregava esta dor e, dia após dia, à medida que o seu pescoço ia crescendo mais triste ia ficando e só tinha um desejo: fugir para longe e de todos se esconder.

Até que hoje de manhã, ao aproximar-se do grande tanque de pedra para matar a sede, viu surgir espelhada na água uma imagem que pensou não ser a sua. Mas ao ver que não havia ninguém por perto, abriu bem os olhos, e só assim acreditou que o lindo cisne que via refletido só podia ser ele.

De repente, sentiu desaparecer toda a mágoa e, finalmente ao erguer a cabeça bem alto, sem receio, viu adquirir em toda a sua figura o porte de um elegante cisne real.

Saindo dali triunfante, ouve a voz da mãe pata que, uma vez mais, a tudo assistiu. Percebendo o que acabara de acontecer corre atrás dele e, passando por Fulgêncio, grita “Ó meu patinho lindo!”.



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