Silvestre, o Papagaio


Desde esse dia, o galo Evaristo, com o seu cantar parece querer dominar todos quantos vivem na Quinta.

Até eu, aflito, tenho de o travar no despique feroz que resolveu lançar ao papagaio Silvestre.

De um dia para o outro, o meu desejo concretizado transformou-se num pesadelo. Entre escaramuças e bicadas, receio vê-los perder as penas tão ricas da sua beleza emplumada, que tanto encanto dão na Quinta a quem os vê.

Quase sem querer, vejo-me a no meio do conflito a tudo fazer para os apaziguar, ouvindo ora um, ora outro.

Silvestre diz não se importar com a provocação do galo e, indiferente, aponta para o seu poleiro lá no alto, exibindo a sua natural superioridade ao demonstrar desdém por quem do chão nem sequer se consegue elevar.

Evaristo, muito belo mas muito terreno, não se deixa ficar, ergue-se o mais que pode apoiado nas garras, estende as longas plumas, e levanta a crista como se fossem dentes de uma serra, mostrando-se poderoso e ainda mais vaidoso.

Sem saber o que fazer, eu vou ao seu encontro e digo-lhe “Evaristo, tens lugar de destaque, aquele que te é devido na capoeira da Quinta, as galinhas parecem tontas e não resistem à tua exuberante figura, que mais queres?”

Não me responde, mas o bico fica-lhe mais amarelo, a crista mais encarniçada, e a cauda volumosa descreve um arco, como quem se sente rei e senhor de tudo.

O Silvestre, que a tal assiste, sai do meio de espigos com flores amarelas e, banhado por uma luz resplandecente, abre as asas sem conter o esgar de troça de quem se sabe dotado de uma beleza rara. E por ali se fica, limitando-se a mordiscar um galho para não soltar uma valente casquinada!


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