CAPÍTULO 1


Fulgêncio, o Capataz


Fulgêncio é o capataz da Quinta do Castanheiro.

Situada algures perto do oceano, entre valados e penhascos, a Quinta é por todos conhecida como um lugar de prosperidade.

Dão-lhe nome e importância os senhores seus donos, o Marquês Gervásio e Dona Gerarda, sua mulher, mas também o capataz que ali tudo governa com mão firme, tanto homens como animais.

O seu perfil recortado na parede caiada da adega, mostra bem pelo que é temido e respeitado.

Um homem que se evidencia no porte e na fealdade, tem um maneirismo que o distingue mesmo quando é visto ao longe. Verga-se e estaca como um gigante, tanto quando está a ouvir para obedecer como quando é preciso mandar.

O seu ar mediévico e algo assustador esconde um espírito pacato ligado ao saber fazer.

De poucas palavras, revela-se justo na forma como resolve os conflitos entre os homens que, às dezenas, povoam a Quinta.

Acorda de madrugada com o cantar do galo Evaristo. Ainda no escuro, levanta-se, arruma-se, e dirige-se para o adro da cozinha da casa. Na mesa maciça de bancos corridos, partilha com os trabalhadores papas de milho e couves regadas com azeite, servidas em pratos fundos.

Quando vê que todos estão satisfeitos, levanta a voz e a mão pesada, e dá início à árdua tarefa de os orientar e enviar para os campos.

Lá irá ter durante a manhã, para averiguar se é tudo feito como é devido, mas antes, ainda tem que passar pelo pomar para ver se há alguma moléstia, e pelos estábulos, currais e galinheiros para verificar o estado de todos os animais.

Empunhando a vara que traz sempre consigo, separa aves para um lado e gado para o outro.

E assim começa mais um dia na Quinta.



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