INTRODUÇÃO


As Caixas do Conto


Dei por elas há uns anos quando passeava por uma feira, no largo do Jardim do Príncipe Real.

Duas caixas, quase pequenas, chamaram-me a atenção pela forma, pela cor da madeira, pelos pormenores delicados dos encaixes, mas sobretudo pelo aroma que saía de dentro delas.

Em ambas, por baixo de uma espessa e lustrosa camada de cera, tinha havido o cuidado de preservar as marcas do tempo e do uso.

Olhando-as encantado, quis com imaginação explicar o sulco de tantos riscos gravados nas tampas. Ocorreu-me terem pertencido a alunos de uma escola de artes, que as teriam usado para guardar tintas, diluentes, pincéis e outros materiais, que fazem o rasgo e a genialidade.

Porém, o facto de não encontrar quaisquer vestígios, obrigou-me a perguntar, ficando a saber que, afinal, tinham servido de requintados contentores. Nelas haviam-se acomodado louças e outras delicadezas, assim transportadas das áfricas para a metrópole.

Naquele dia, num passeio pelo jardim, encontrara eu, sem contar, duas caixas viajadas, numa belíssima cor de mel, uma retangular e outra quadrada, sem saber ainda o destino que lhes havia de dar.

A primeira levei-a para casa, a outra foi-me oferecida, e por lá andaram vazias, a ser admiradas como relíquias, enquanto não lhes arranjava uma função à imagem do seu valor. Até lá, queria-as antes vazias que ocupadas por uma qualquer banalidade.

Um dia, dentro de uma, fui pousar três azulejos antigos, como se de repente, só ali pudessem estar. Quando olhei pensei na cerâmica, uma vez mais lá dentro como uma fatalidade.

Desde esse dia, comecei a sentir como se na caixa tivesse guardado um tesouro. Com o passar dos dias, esse sentimento foi-se acentuando, e com ele o desejo de acrescentar o que considerei que iria enriquecer o seu interior.

Ficou claro para mim, a partir daquele momento, que teria de ir à procura de outros azulejos, conseguir juntá-los em trios, cumprindo assim o desígnio que tão bem se enquadrava na forma e no espaço de cada caixa.

Foi precisamente através desta forma de seleção, inicialmente quase ingénua, que percebi que aquilo que mais me atraía neste desafio, não era o estudo científico e canónico, mas sim e quase só o puro sentimento criativo e estético.

Querendo embelezar o interior das caixas com azulejos, datados entre os séculos dezassete e dezoito, fui levado a dar um novo sentido às peças soltas que encontrava, criando para elas um novo propósito através de uma narrativa representada em trios.

A partir daí, seguindo este critério, passei a estabelecer para cada azulejo um novo significado e uma identidade autónoma, fora do contexto da arquitetura a que teriam pertencido.

Uma vez quebrado o seu elo com o lugar de origem, cada azulejo de cada trio exposto nas caixas adquire leituras diferenciadas enquanto peça isolada ou parte de um conjunto.

O entusiasmo e o prazer com que este trabalho tem sido feito, é de tal ordem, que não há um único dia em que não tenha vontade de abrir as caixas. Como num ritual, começo por pegar com cuidado nas fivelas das tampas que ergo lentamente, sentindo o aroma que me faz viajar até ao primeiro dia.

Depois, fico a olhar demoradamente para cada um dos quadrados de cerâmica, dispostos em filas de três peças. Trago-os para fora para lhes sentir o peso, a espessura, o relevo da tinta e o vidrado que os cobre. Tanto me ponho a contemplar cada um, como a averiguar se estou certo da composição do trio ou se a posso melhorar.

Quando desço as tampas e fecho as caixas, fico a pensar no que acabei de ver e de sentir, guardando na memória as estórias fascinantes que estas peças conseguem contar numa tão pequena superfície. Estórias ilustradas com desenhos tão miudinhos de seres a perder de vista como no universo. Em tudo sinto que há uma mão e um brilho que faz vibrar cada pincelada.

Recentemente, ao falar destas estórias com Alexandre Pais, fui desafiado por ele a ligá-las numa única. Dada a quantidade de azulejos de figura avulsa guardados nas caixas, em que aparecem tanto homens como mulheres, flores e animais, imaginei-os todos a coabitar um mesmo lugar. E assim nasceu o conto Um dia na Quinta do Castanheiro.



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