11 ~ Ataíde vive um pesadelo


A primeira viagem de Ataíde numa embarcação frágil, através de um mar turbulento, serviu bem para testar os nervos e a coragem do seu espírito rebelde e audaz. Isto é tão verdade que, só depois desta experiência, passou a olhar para o mar de outra maneira, de forma mais séria e consciente, isto é, começou a temê-lo. Recorda-se bem da tempestade que presenciou ao largo da costa no norte de África. Não se esquece desse momento aterrorizador, pois ainda hoje, no silêncio da noite, vê aquele manto de mar bravo e negro para onde, ao mínimo deslize, poderia ter sido lançado e engolido. Tem gravado na memória o som dos mastros a gemer e a querer vergar, as velas encharcadas e batidas por um vento que tudo queria rasgar e destruir. Ainda sente o chão balançar debaixo dos pés ao sabor de vagas mais altas do que as velas e as águas geladas a varrerem o seu corpo trémulo no convés. Não se conseguindo agarrar, sente as cordas a fugirem-lhe e a rasgarem-lhe os dedos. Enjoado e com a cabeça à roda, ouve os seus gritos desesperados em coro com os dos outros homens… E ali ninguém se encara por vergonha de tanto medo.



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