2~ Ataíde recorda a infância com Gerarda


Tão longínquo lhe parece o tempo em que a ama Gerarda o levava até à pequena praia, no fundo da ravina por onde desciam depois de atravessarem a pequena mata de arvoredo e palmeiras junto ao muro da Quinta. Assim que chegava o mês de junho, costumavam, os dois, sair cedo de manhã para chegarem a tempo de sentir a aragem fresca e o cheiro intenso da maresia concentrado na pequena enseada lá em baixo. Por lá ficavam algumas horas, ele junto dos barcos dos pescadores, mexendo nas redes, nas cordas e imitando com gestos o uso dos remos pesados, ali deixados de um dia para o outro. As gaivotas em seu redor gritavam ao ver um barco parecer fazer-se ao mar. Gerarda, por perto, vigiava-o, ao mesmo tempo que ia apanhando pequenas conchas que gostava de levar para casa e juntar num frasco guardado no armário da sua sala preferida. Quando o sol, a pouco e pouco, começava a ganhar brilho e se impunha inclemente, Ataíde ouvia-a chamar. Com palavras meigas era-lhe dito que havia um caminho íngreme para subir, que já eram horas de se despedir do mar e dos barquinhos, e que ali voltariam no dia seguinte.



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2~ Ataíde recalls his childhood with Gerarda

As soon as June arrived, the two of them used to leave early in the morning to catch in time the fresh breeze and the intense smell of the salt air concentrated in the small cove below. There they stayed for a few hours: the boy – near the fishermen's boats, touching the nets and the ropes and aping the heavy oars motion, (…) The seagulls around them screamed when they saw a boat appear to be going to the sea.