Introdução



Tão entretido estava a remexer em caixas com azulejos, que não esperava ver, de repente, pousado no canto de uma bancada onde se montava um impressionante painel, um conjunto de azulejos tão extraordinário que me fizesse parar e ficar a olhar.

Posso dizer que foi amor à primeira vista! É que, encontrando-me ali apenas à procura de azulejos para ilustrarem a narrativa do conto «Um dia na Quinta do Castanheiro», entretanto publicado pelo Museu Nacional do Azulejo, vi-me subitamente seduzido pela beleza de uns pequenos fragmentos que compunham a imagem encantatória de uma embarcação. Conseguia ver neles tudo o que havia para ver numa caravela em alto mar, e foi também no mar dos pensamentos que vi surgir a oportunidade de me lançar num novo desafio, isto é, num novo conto.

De regresso a casa, com aquela imagem na mente, tratei logo de criar um propósito para aquele trio de quatro peças que acabara de encontrar. A Caravela teria, pois, de entrar nas caixas do conto, e quem melhor havia para dar vida a essa embarcação, senão o filho do marquês Gervásio, o Ataíde, o menino que em tempos idos, com uma cana, rabiscava barquinhos no chão.

A partir desse preciso momento comecei a delinear a estória que haveria de dar continuidade à trama iniciada na Quinta do Castanheiro. Ataíde, o menino, haveria de crescer, fazer-se homem e, um dia, a bordo de uma caravela, iria dar início a uma carreira que faria dele o homem que hoje é.

Assim nasceu este conto, o segundo, «Um dia no mar com Ataíde, o Capitão», ilustrado por dezoito trios de azulejos, na sua maioria relacionados com a vida marinha e marítima.

Numa abordagem bastante distinta da que foi usada no primeiro conto, neste caso a narrativa desenvolve-se em torno de Ataíde. Retratado na vida adulta, ainda que recorrendo às memórias de episódios da infância e da adolescência, o texto obedece a um estilo que, de certo modo, evita a fantasia e a fábula que tanta graça deram a «Um dia na Quinta do Castanheiro», o primeiro conto, povoado de homens e animais.

Este novo conto tem uma característica dominante, que merece particular atenção, e que nos deixa antever um registo quase cinematográfico. Em cada trio, a ação desenrola-se no grande plano do azulejo do centro, enquanto nos laterais vemos signos alusivos ao tema, ou planos gerais, que não nos deixam perder o fio condutor de uma narrativa idealizada como um todo.

É com enorme satisfação que agradeço o apoio na concretização deste novo projeto à equipa do Museu Nacional do Azulejo, às equipas de Manuel Capucho e de Manuel Leitão, à Fátima Sampaio e à Luísa Martinho, ao Gustavo Suarez, desenhador gráfico da Uzina Books, à Cristina Costa, que fez a revisão do texto, e ao Sérgio Manuel das Neves, meu irmão.



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Integrado na iniciativa: "De Porta Aberta… Escolha como quer entrar ".