Uma das tipologias de painéis figurativos mais procurados pelos colecionadores são, provavelmente, os chamados “registos”. Estes são painéis de dimensões variadas, normalmente pequenas, que constituem como que um quadro cerâmico contendo toda a informação que se pretendia veicular, não estando dependentes de outros painéis para compor um discurso narrativo e iconológico. Um registo é, na maioria dos casos, uma peça independente, sendo, por isso, fácil de integrar num outro contexto. Surgindo no inicio do século XVII, como consequência das possibilidades que a pintura sobre a superfície lisa do azulejo permitia na elaboração de composições figurativas, o “registo” atravessou séculos, permanecendo popular ainda nos nossos dias na forma dos pequenos painéis com santos que surgem nas fachadas de residências, como elemento de proteção.

Nas reservas do MNAz há diversos “registos”, muitos expostos, mas alguns também em processo de inventariação e descoberta. Em alguns casos sabemos que não os iremos conseguir completar, como acontece com a “Crucifixão” com a Virgem e São João Evangelista, do qual das 42 peças que o compunham possuímos unicamente 8 azulejos.

Painel Crucifixão 1undefined

CRUCIFIXÃO

Lisboa, c. 1640-1660

c. 1,12 x 0,80 cm

Não obstante os poucos elementos percebemos que a composição procurava imitar verdadeiramente um quadro, com o seu emolduramento a simular o trabalho de talha. A pintura pretendia transmitir o dramatismo do momento, com as nuvens densas e em curvas inquietas rodeando a cruz, da qual só temos uma visão parcelar do local onde se encontra a anca de Cristo e o tecido que o cobre. Ladeiam-na as figuras de Maria, à esquerda do observador, no movimento de quem cobre o rosto, e São João, à direita, com os Evangelhos na mão esquerda.

As cores empregues indicam que o painel terá sido produzido num período próximo ou imediatamente a seguir à Restauração de 1640, aspeto patente nas tonalidades menos brilhantes e límpidas que marcaram a fase anterior, onde havia disponibilidade de pigmentos mais puros.

É interessante notar como um mesmo tema pode encontrar variações há medida que o tempo passa. São muitas as versões de “registos” com crucifixões, mas uma das mais invulgares é aquela em que a imagem de Cristo não surge representada, como acontece num painel do século XVIII, do qual estamos em fase de procura dos elementos em falta.

Painel azulejos Cruxifição

CRUCIFIXÃO

Lisboa, c. 1730-1750

c. 1,40 x 0,80 cm

Este painel destinava-se, provavelmente, ao fundo de um altar e nele podemos perceber a Cruz e, ao fundo, Jerusalém. A imagem mostra a cena após a remoção do corpo de Jesus, estando aí representada a Cruz, com os pregos ainda fixados e a ausência total de figuração. É a paisagem no seu sentido mais desolador. Por vezes, em painéis com esta representação, eram colocados crucifixos em materiais preciosos, como marfim, por exemplo, sobrepondo-se ao que se encontrava pintado, alterando o sentido de vazio que se pretendia imprimir com a representação e tornando-se o painel de azulejos um mero fundo de encenação.