SEGREDOS EM RESERVA

No trabalho de inventariação, há painéis que acabam por conquistar a categoria de “nossos favoritos” e para os quais dirigimos um esforço especial na tentativa de os completar. Entre estes integram a coleção do Museu Nacional do Azulejo elementos de uma série que deveria ser de qualidade excecional e destinados a um espaço especial. Este conjunto, composto por um número ainda indeterminado de peças, ao presente muito incompletas, apresentam nas molduras, lateralmente, bustos de filósofos: Descartes, Heraclito…

Infelizmente não tem sido possível reunir em número suficiente azulejos que nos permitem completar algum dos painéis, nem perceber como se organizava o seu emolduramento, nem definir claramente os motivos que neles surgem representados. No entanto, há um único que possuí parte do tema central e nele surge, no meio de nuvens, a imagem de uma mulher sonhadora, apoiada em livros, a ser observada por um querubim. A imagem, invertida, é baseada numa gravura de Martin Engelbrecht (1684-1756), de cerca de 1750, e que representa a Poesia.


Painel a Poesia

POESIA

Lisboa, c. 1750-1760

c. 1,40 x 0,56 cm


Gravura A Poesia

Poesia

Martin Engelbrecht, c. 1750

Imagem Europeana


Nas suas dimensões originais o painel tinha de altura 1,40 cm e, ainda que não nos seja possível definir a totalidade do seu comprimento, pelos azulejos que compõem a imagem da Poesia sabemos que, incluindo esta, tinha até 2,80m. Tratava-se, portanto, de um painel central, de aparato, finamente pintado numa tonalidade suave, que criava contraste com a densidade cromática do emolduramento. O que é notável nesta pintura é o rosto da figura feminina e a beleza do seu olhar perdido na distância, dotado de uma expressividade que a imagem gravada não consegue transmitir e que no azulejo alcança a inspiração.