A pintura cerâmica apresenta dificuldades que, mesmo para pintores experientes com outro tipo de materiais, revela grande complexidade. A pincelada tem que ser segura, pois a água é logo absorvida, o que impede a possibilidade de emendas; o artista não está a ver a cor final, que só surge após a cozedura; e os sombreados e sobreposições de diferentes tonalidades são muito difíceis, pois o resultado desse trabalho só poderá ser avaliado quando a peça sai do forno. Todas estas características (e outras ainda) fazem da pintura cerâmica e do azulejo em particular, uma Arte a ser observada com grande atenção e respeito pelo artista que a consegue dominar.

Há obras que se têm vindo a descobrir nas reservas do Museu Nacional do Azulejo que, pela sua qualidade técnica, deveriam ser integradas na sua exposição permanente. Um desses casos é o painel que denominamos “O tocador de gaita de foles”.



O TOCADOR DE GAITA DE FOLES

Lisboa, c. 1710-1730

c. 0,80 x 0,80 cm


Ainda que não se conheça a gravura, um quadro de Abraham Bloemaert (1566-1651), do qual foi feita uma gravura c. 1650 por Cornelis Bloemaert (1603/1684) e publicada por Abraham Danckertsz (c.1603/1656), conhecidos como “Camponês tocando gaita de foles” apresenta muitas semelhanças com a figura principal.


Camponês tocando gaita de foles

Quadro de Abraham Bloemaert, gravura Cornelis Bloemaert, publicada por Cornelis Danckertsz, c. 1650

Imagens Metropolitan Museum


O que é notável neste painel é a qualidade e mestria do rosto do tocador de gaita de foles, imagem que parece quase um retrato, com os sombreados magistralmente definidos. Particularmente eloquente é o modo como o pintor soube dar um brilho líquido aos olhos, dotando-os de uma expressividade só possível de alcançar pela mão de um Mestre.